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Geracao distribuida no Brasil: numeros de 2028

O Brasil atingiu 4 milhoes de sistemas de GD. Veja a evolucao, potencia instalada, empregos e projecoes.

Por Redação Editorial CustoSolar

O que é geração distribuída e por que os números importam?

Geração distribuída (GD) é a produção de energia elétrica próxima ao ponto de consumo, por sistemas de até 5 MW de potência. Ao contrário das usinas centralizadas (que geram energia longe dos centros e a transmitem por milhares de quilômetros), a GD produz onde se consome — residências, comércios, indústrias e propriedades rurais.

O impacto no sistema elétrico vai além da conta de luz individual. Com milhões de sistemas gerando energia distribuídamente, a pressão sobre a rede de transmissão e distribuição diminui. Isso significa menos necessidade de construir novas linhas de transmissão — uma economia que, em última instância, beneficia todos os consumidores (mesmo os que não têm solar).

A ABSOLAR acompanha esses números mensalmente e os divulga em seu infográfico setorial, base dos dados apresentados neste artigo.

Panorama 2028: os números do mercado

MétricaValor
Sistemas instalados4,2 milhões
Potência instalada GD32 GWp
Potência total solar (GD + centralizada)58 GWp
Participação na matriz elétrica12%
Investimentos acumuladosR$ 175 bilhões
Empregos (diretos + indiretos)350.000
Emissões de CO2 evitadas (anual)28 milhões de toneladas

Para contextualizar: 4,2 milhões de sistemas é mais que o dobro dos sistemas instalados em 2022 (1,9 milhões). O Brasil instalou mais sistemas solares de GD nos últimos 3 anos do que nos 10 anos anteriores.

Evolução histórica da GD no Brasil

AnoSistemas instaladosPotência GDCrescimento
2020480.0004,5 GWp
2021850.0008,2 GWp+77%
20221.400.00013,8 GWp+68%
20232.100.00019,5 GWp+41%
20243.000.00024,8 GWp+27%
20253.600.00028,1 GWp+13%
2026 (projeção)4.200.00032 GWp+14%

O ritmo de crescimento está desacelerando em termos percentuais (base maior), mas o volume absoluto de novos sistemas instalados por ano continua crescendo.

Crescimento em 2028: análise detalhada

O mercado cresceu 18% em 2028 vs 2027 em potência instalada. O ritmo desacelerou levemente (era 22% em 2027) por dois fatores:

  1. Base maior: 18% de crescimento sobre 28 GWp representa 5 GWp novos em um ano — mais que o mercado total de 2021.

  2. Transição tarifária da Lei 14.300: A cobrança gradual do “fio B” desde 2023 reduziu marginalmente o retorno do solar residencial. Alguns consumidores adiam a decisão aguardando uma tarifa que de fato não muda tanto o payback final.

O volume absoluto — 650.000 novos sistemas em 2028 — é recorde. Isso representa 1.780 novos sistemas instalados por dia no Brasil.

Liderança por estado e o que explica cada posição

PosiçãoEstadoPotência GDPrincipal fator
1Minas Gerais5,8 GWpTarifa alta da CEMIG + mercado maduro
2São Paulo5,2 GWpMaior mercado consumidor do Brasil
3Rio Grande do Sul3,1 GWpCultura cooperativista + tarifa elevada
4Paraná2,8 GWpVolume de instalações, COPEL historicamente estável
5Goiás2,1 GWpIrradiação excelente + agronegócio solar

Por que Minas Gerais lidera? A CEMIG (distribuidora de MG) tem historicamente uma das tarifas mais altas do país — o que torna o payback do solar mais curto. Além disso, o mercado de instaladores em MG é o mais competitivo do Brasil, com boa concorrência de preços. A combinação de tarifa alta + instalação barata = melhor retorno per capita.

Por que o Sul cresce tanto apesar de menos sol? As cooperativas de crédito (Sicredi no RS e PR, Cresol no PR) facilitaram enormemente o financiamento solar para agricultores e comerciantes, especialmente no interior. O crédito acessível foi o principal catalisador do crescimento sulista.

Perfil dos sistemas instalados: quem está instalando solar?

ClasseSistemas (% do total)Potência (% do total)
Residencial (até 10 kWp)72%35%
Comercial (10-75 kWp)22%40%
Industrial/rural (75 kWp-5 MWp)6%25%

O residencial domina em número de sistemas, mas o comercial e industrial movem mais potência. Um único supermercado com 300 kWp equivale a 30 residências com 10 kWp cada — em potência, são iguais, mas em número de sistemas, são contados como “um vs trinta”.

O crescimento do rural

O agronegócio representa 6% dos sistemas, mas está crescendo acima da média. Em 2022, eram 2% dos sistemas. O Pronaf Eco (taxa de 3% a.a.) e o FCO Rural aceleraram muito a adoção no campo.

A ABSOLAR projeta que o rural chegará a 15% dos sistemas em 2030, impulsionado pela eletrificação do agronegócio (bombeamento solar, galpões avícolas, câmaras frias solares).

O impacto econômico nos municípios menores

Um fenômeno interessante: cidades pequenas (10.000 a 50.000 habitantes) têm taxa de adoção de solar proporcionalmente maior que capitais. Isso porque:

  • Maior proporção de casas (vs apartamentos)
  • Telhados mais simples e acessíveis
  • Conta de luz proporcionalmente maior em relação à renda (mais sensibilidade à economia)
  • Mercado de instaladores menos congestionado (tempo de instalação menor)

Municípios como Unaí-MG, Palmas de Monte Alto-BA e Sorriso-MT têm taxas de penetração de solar acima de 15% das residências — bem acima da média nacional de 5-7%.

Projeção 2030: onde o mercado vai chegar?

A ABSOLAR projeta 50 GWp de GD instalados até 2030 — suficiente para abastecer 20% do consumo residencial do país. Para atingir essa meta, o Brasil precisaria instalar cerca de 9 GWp/ano nos próximos 4 anos — ritmo superior ao atual (5 GWp/ano de GD).

É ambicioso, mas não impossível. Com:

  • Continuação da queda de preço dos equipamentos (projeção de -15% até 2030)
  • Expansão do crédito digital
  • Crescimento do mercado de baterias residenciais
  • Abertura do mercado livre para baixa tensão (2028)

O potencial de mercado ainda inexplorado é enorme: existem 30 milhões de residências e 5 milhões de estabelecimentos comerciais no Brasil. Com 4,2 milhões de sistemas instalados, a penetração ainda é de apenas 12% do potencial.

Impacto da GD no sistema elétrico brasileiro

Com 32 GWp de GD instalados, o impacto vai além da conta de luz individual. A ABSOLAR e a ANEEL documentam efeitos sistêmicos importantes:

Redução de perdas de transmissão: Energia gerada localmente não percorre centenas de quilômetros em linhas de alta tensão. Com 4,2 milhões de sistemas gerando nas pontas da rede, as perdas de transmissão caíram 2-3 pontos percentuais nos estados com maior penetração de solar. Isso representa bilhões de reais em energia que deixou de ser desperdiçada.

Alívio no horário de ponta: O horário crítico da rede elétrica no Brasil é entre 11h e 14h no verão — exatamente quando a geração solar está no pico. Em estados como MG e SP, a GD solar chegou a reduzir em 8-12% a demanda máxima da rede em dias de verão com sol pleno.

Distribuição geográfica da geração: Usinas centralizadas concentram a geração em poucos pontos, exigindo linhas de transmissão extensas. A GD gera em 5.570 municípios brasileiros, tornando o sistema elétrico mais resiliente a falhas localizadas.

Geração de empregos locais: 350.000 empregos diretos e indiretos, distribuídos por todo o Brasil. Ao contrário das usinas centralizadas (que concentram empregos em poucos locais durante a construção), a GD cria empregos permanentes em instalação e manutenção em todos os estados.

O que vem por aí: tendências para 2028-2030

Além do crescimento contínuo do mercado tradicional, cinco tendências prometem acelerar ou transformar a GD nos próximos anos:

1. Veículos elétricos com Vehicle-to-Grid (V2G): Carros elétricos como baterias em duas vias — carregam quando há excedente solar e fornecem energia para a casa à noite. Previsão de primeiros projetos piloto no Brasil em 2027-2028.

2. Baterias residenciais massificadas: O preço das baterias LFP caiu 37% em 2 anos. A ABSOLAR projeta 500.000 sistemas com bateria instalados até 2030 — contra menos de 50.000 em 2025.

3. Agrovoltaico como modalidade reconhecida: A ANEEL deve criar regulamentação específica para agrovoltaico (integração agricultura + solar) até 2027, impulsionando esse segmento no Centro-Oeste e Nordeste.

4. Redes inteligentes (smart grids): Distribuidoras estão investindo em smart meters e automação de rede para gerenciar o fluxo bidirecional de 4+ milhões de sistemas de GD. A integração com sistemas de gestão de energia domiciliar vai maximizar o aproveitamento do solar.

5. Mercado livre para todos: A abertura total do mercado livre de energia em 2028 vai criar uma nova dinâmica. GD própria + mercado livre como estratégia combinada de redução de custos para PMEs.

Fontes e referências