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Tracker solar: vale a pena no Brasil?

Rastreadores solares de eixo unico aumentam a geracao em 15-25%. Mas o custo extra compensa? Analise com numeros reais.

Por Redação Editorial CustoSolar

O mercado fotovoltaico brasileiro e a escolha do equipamento certo

O mercado fotovoltaico brasileiro movimenta mais de R$ 45 bilhões por ano e a evolução dos equipamentos não para. As opções disponíveis hoje são muito superiores ao que tínhamos há 3 anos — mais eficientes, mais baratas e com garantias maiores. Entre as decisões mais importantes do projeto de uma usina solar está a escolha entre estrutura fixa e tracker (rastreador solar).

Para sistemas residenciais e pequenos comerciais, o tracker raramente faz sentido. Para usinas a partir de 500 kWp, a análise muda completamente — e o tracker de eixo único pode ser a diferença entre um projeto que gera retorno excepcional e um que apenas cumpre o planejado.

O que é um tracker de eixo único e como ele difere da estrutura fixa?

A estrutura fixa posiciona os painéis em um ângulo fixo, determinado na fase de projeto para maximizar a captação anual na latitude do local. Uma vez instalada, não se move. O tracker de eixo único horizontal gira de leste a oeste ao longo do dia, acompanhando o movimento do sol.

A diferença de captação é intuitiva: quando o sol está a leste (manhã), os painéis fixos inclinados para norte captam a radiação em ângulo oblíquo. O tracker já girou para receber a radiação de frente, perpendicular. O mesmo ocorre à tarde, com o sol a oeste.

O resultado: mais geração pela manhã e à tarde, e produção total mais distribuída ao longo do dia — o que também melhora o fator de capacidade da usina (razão entre a energia gerada e a potência instalada).

Ganho real medido: qual é o aumento de geração?

O ganho do tracker em relação à estrutura fixa no Brasil varia por região:

RegiãoHSP médioGanho com tracker SATGanho com tracker DAT
Nordeste (CE, RN, BA)5,5–5,822–28%28–35%
Centro-Oeste (GO, MT)5,2–5,520–25%25–30%
Sudeste (MG, SP)4,8–5,218–23%22–28%
Sul (PR, SC, RS)4,3–4,815–20%18–24%

O ganho é maior onde há mais radiação direta (Nordeste) e menor onde a radiação difusa é mais relevante (Sul). Em dias completamente nublados, a radiação é difusa e vem de todas as direções — o tracker não tem vantagem nesse cenário.

Exemplo real: A usina de Pirapora (MG), com 321 MWp e tracker de eixo único, registrou ganho médio de 26% sobre estrutura fixa equivalente nos primeiros 3 anos de operação. Em anos anteriores, a usina de Bom Jesus da Lapa (BA), com HSP 5,8, registrou 28% de ganho.

Por que a escolha de equipamentos vai além do tracker?

O tracker é importante, mas não é o único fator que determina a geração real de uma usina. Três parâmetros técnicos dos módulos têm impacto igualmente importante no desempenho de longo prazo:

Eficiência real vs. eficiência de laboratório

Os fabricantes anunciam eficiência medida em condições STC (Standard Test Conditions): 25°C, 1000 W/m², AM 1.5. No telhado real em Goiânia a 45°C de temperatura ambiente — e 60–65°C de temperatura de módulo — a eficiência cai 8–12%. Por isso, o coeficiente de temperatura é tão importante quanto a eficiência nominal:

  • Painéis PERC: -0,35%/°C → perda de 14% a 65°C de operação
  • Painéis TOPCon: -0,30%/°C → perda de 12% a 65°C de operação
  • Painéis HJT: -0,24%/°C → perda de 9,6% a 65°C de operação

Para usinas no Nordeste e Centro-Oeste, essa diferença de 2–4% representa dezenas de MWh/ano em projetos grandes.

Degradação: a perda silenciosa que nunca para

Painéis PERC degradam ~0,55% ao ano (após o primeiro ano com 2% de LID). Painéis TOPCon degradam ~0,40% ao ano (LID de apenas 1%). Em 25 anos:

  • Sistema de 5 MWp com PERC: mantém ~78% da potência nominal
  • Sistema de 5 MWp com TOPCon: mantém ~85% da potência nominal

Diferença acumulada em 25 anos para uma usina de 5 MWp com PPA de R$ 280/MWh: aproximadamente R$ 8–12 milhões de receita adicional ao longo da vida útil — apenas pela escolha do módulo TOPCon sobre o PERC.

Garantia de desempenho: o que realmente importa na garantia

Quase todos os fabricantes tier-1 oferecem garantia de 25–30 anos de desempenho. Mas os detalhes importam:

  • PERC (garantia típica): 80% da potência nominal no ano 25
  • TOPCon (garantia típica): 87% da potência nominal no ano 25
  • HJT (garantia típica): 90% da potência nominal no ano 25

Se o módulo entrega 86% de potência no ano 25 (1% acima da garantia de 85%), não há acionamento de garantia. Se entrega 84%, o fabricante é obrigado a substituir ou compensar. A garantia só importa se for acionável — e para isso, o fabricante precisa existir daqui a 25 anos (escolha tier-1) e a diferença de desempenho precisa ser verificável (exige sistema de monitoramento adequado).

Análise financeira comparativa: tracker vs. estrutura fixa

Para uma usina hipotética de 2 MWp em Minas Gerais (HSP 5,1), com PPA de R$ 0,32/kWh:

Cenário A: estrutura fixa com módulos TOPCon

ParâmetroValor
Investimento totalR$ 8.200.000
Geração anual (ano 1)3.200 MWh
Receita anual (ano 1)R$ 1.024.000
Payback8,0 anos
TIR (25 anos)11,5%

Cenário B: tracker SAT com módulos TOPCon

ParâmetroValor
Investimento totalR$ 10.600.000
Geração anual (ano 1)3.840 MWh (+20% com tracker)
Receita anual (ano 1)R$ 1.228.800
Custo O&M adicionalR$ 60.000/ano
Receita líquida adicionalR$ 144.800/ano
Payback adicional do trackerR$ 2.400.000 / R$ 144.800 = 16,6 anos
TIR (25 anos)10,8%

Neste exemplo específico, a TIR do cenário com tracker é menor que sem tracker. Isso acontece porque o preço do PPA é baixo (R$ 0,32/kWh) — o ganho de geração não compensa o investimento adicional no custo de capital.

Se o PPA fosse R$ 0,50/kWh (GD residencial):

  • Receita adicional: R$ 320.000/ano
  • Payback adicional: 7,5 anos → TIR do tracker: 12,8% → vale a pena

Conclusão: O tracker vale a pena quando o preço da energia vendida é mais alto (GD residencial, ACL com preço premium) e nos segmentos de alta irradiação (Nordeste, Centro-Oeste). Em projetos de leilão com preço baixo, a análise pode não fechar.

Recomendação por perfil de projeto

Usina de GD acima de 500 kWp no Nordeste: Tracker de eixo único quase sempre se justifica. A combinação de irradiação alta, alta proporção de radiação direta e preço de energia mais alto no GD garante payback de 4–6 anos sobre o custo adicional.

Usina utility-scale acima de 5 MWp em qualquer região: Avaliar com dados específicos do local. Em geral, o tracker se paga — mas faça a análise de sensibilidade com variações de ±20% no preço do PPA.

Usina de GD abaixo de 500 kWp ou no Sul: Avalie caso a caso. Frequentemente, o custo adicional do tracker não se justifica para projetos pequenos, onde o custo fixo de engenharia e logística do tracker é proporcionalmente maior.

Residencial e pequeno comercial (até 100 kWp): Não use tracker. Invista em módulos de maior eficiência (TOPCon), microinversores (se houver sombreamento) ou mais painéis com estrutura fixa. O custo-benefício é muito melhor.

Segundo a ABSOLAR, em 2026 mais de 65% das usinas utility-scale novas no Nordeste e Centro-Oeste já são instaladas com tracker de eixo único, confirmando a consolidação dessa tecnologia no segmento de grande porte. Dados disponíveis em www.absolar.org.br.

Fontes e referências