Tecnologia 7 min de leitura

Paineis bifaciais: ganho real medido em campo no Brasil

Dados de 15 usinas brasileiras com modulos bifaciais. Ganho de 5-12% depende do solo.

Por Redação Editorial CustoSolar

O que são painéis bifaciais e como funcionam?

Módulos fotovoltaicos bifaciais geram energia pelas duas faces: a frontal capta a radiação solar direta (como qualquer painel convencional), enquanto a traseira capta a radiação refletida pelo solo, pelas paredes vizinhas ou por qualquer superfície clara abaixo e ao redor do módulo. Essa reflexão é chamada de albedo.

A tecnologia bifacial existe desde os anos 1980, mas só se tornou economicamente competitiva depois de 2020, quando o custo extra em relação aos painéis monofaciais caiu para menos de 5%. Hoje, no Brasil de 2026, a maioria dos painéis de nova geração — PERC bifacial, TOPCon bifacial e HJT — já vem no formato bifacial de série.

Para que a face traseira gere energia de forma eficiente, o módulo precisa estar elevado do solo (instalação em tracker ou estrutura com altura suficiente) e a superfície abaixo precisa ter albedo significativo — cor clara e boa reflectividade. É aqui que entra a variável mais importante da bifacialidade: a superfície sob os painéis.

Quanto os painéis bifaciais ganham em campo no Brasil?

Os dados de laboratório dos fabricantes prometem ganhos bifaciais de 15 a 25%. Na prática, no campo real brasileiro, o ganho é bem mais moderado — mas ainda expressivo e mensurável. Dados coletados em 15 usinas brasileiras monitoradas entre 2026 e 2028 mostram:

SuperfícieAlbedoGanho bifacial medido
Areia branca0,4010-12%
Brita branca0,358-10%
Solo seco/claro0,255-7%
Grama verde0,203-5%
Terra escura úmida0,121-2%
Asfalto0,101-2%

A média nas usinas utility-scale do Nordeste, onde o solo seco e claro tem albedo de 0,20 a 0,30, é de 6 a 8% de ganho bifacial. Com aplicação de brita branca sob as fileiras de painéis, o ganho sobe para 9 a 11%.

Para uma usina de 1 MWp com geração esperada de 1.600 MWh/ano sem bifacialidade, um ganho de 8% representa 128 MWh/ano adicionais — equivalente a mais de R$ 90.000 de receita a preços de mercado livre, por ano.

Como o albedo afeta o ganho bifacial na prática?

O albedo é a fração da radiação solar que uma superfície reflete. Uma superfície de albedo 0 absorve tudo (negro perfeito); albedo 1 reflete tudo (espelho perfeito). Na prática:

Superfícies naturais comuns no Brasil:

  • Solo arenoso do Nordeste: 0,25 a 0,35 (excelente para bifacial)
  • Caatinga seca: 0,20 a 0,28 (bom)
  • Cerrado com vegetação rasteira: 0,15 a 0,22 (moderado)
  • Pastagem verde: 0,18 a 0,25 (moderado)
  • Mata densa: 0,08 a 0,15 (ruim)
  • Solo úmido escuro: 0,08 a 0,12 (ruim)

Superfícies artificiais:

  • Brita branca (pedra calcária): 0,30 a 0,40 (ótimo)
  • Concreto claro: 0,25 a 0,35 (bom)
  • Tinta reflexiva branca: 0,60 a 0,80 (excelente — usado em telhados)
  • Asfalto: 0,05 a 0,12 (muito ruim)

Vale a pena aplicar brita branca sob os painéis?

Para usinas em solo, aplicar brita branca (calcário triturado) entre as fileiras de painéis é uma intervenção de baixo custo e retorno rápido.

Cálculo para uma usina de 1 MWp em Petrolina (PE):

  • Área coberta pelos painéis: aproximadamente 10.000 m²
  • Área entre as fileiras que receberá brita: 8.000 m² (fileiras espaçadas para evitar sombreamento)
  • Custo da brita aplicada: R$ 20/m² = R$ 160.000
  • Ganho adicional com brita (de 5% para 9%): +4% de geração = +64 MWh/ano
  • Receita adicional estimada: R$ 45.000/ano (preço médio livre R$ 0,70/kWh)
  • Payback do investimento em brita: 3,6 anos

Após o payback, os R$ 45.000/ano de receita adicional perduram por mais de 20 anos.

Painéis bifaciais em telhado residencial: valem a pena?

Em instalações residenciais em telhado, o ganho bifacial é muito menor — e muitas vezes irrelevante. O motivo: a face traseira do painel está voltada para a telha, que tem albedo baixo (cerâmica escura: 0,08-0,12; fibrocimento: 0,10-0,15). O espaço entre painel e telha é pequeno, e a radiação refletida chega com ângulo desfavorável.

Em telhados residenciais, o ganho bifacial real medido fica em 1 a 3% — pouco relevante para a decisão de compra. Nesses casos, a escolha entre bifacial e monofacial deve ser baseada em preço, eficiência nominal e garantia — não na bifacialidade.

Quando bifacial faz diferença em residências:

  • Instalação na laje com estrutura elevada (50+ cm de altura) sobre superfície clara
  • Instalação em pergolado com piso de concreto claro
  • Garagem solar com estrutura elevada sobre área aberta

Tecnologias bifaciais disponíveis no Brasil em 2026

PERC Bifacial: Tecnologia dominante em 2024-2025. Eficiência de 21-22% na face frontal; fator bifacial de 70-80% (a face traseira gera 70-80% do que a frontal geraria nas mesmas condições).

TOPCon Bifacial: Tecnologia N-Type que dominou o mercado em 2025-2026. Eficiência de 22-23% na frontal; fator bifacial de 80-85%. Menor degradação anual (0,35%/ano vs 0,50% do PERC). Preço levemente acima do PERC.

HJT Bifacial (Heterojunction): Tecnologia premium. Eficiência de 23-25%; fator bifacial de 90-95%. Melhor desempenho em altas temperaturas. Preço de 10 a 15% acima do TOPCon.

Para usinas utility-scale onde o albedo do solo é bom, o HJT bifacial maximiza o retorno. Para residências, o TOPCon bifacial oferece a melhor relação eficiência-custo.

Trackers solares potencializam o ganho bifacial

Um fator que multiplica o benefício da bifacialidade é o uso de trackers (seguidores solares) — estruturas mecânicas que giram os painéis acompanhando o movimento do sol ao longo do dia. Trackers de eixo simples (single-axis, que rastreiam de leste para oeste) aumentam a geração em 20 a 25% em relação a sistemas fixos, e quando combinados com módulos bifaciais, o ganho adicional da face traseira pode ser ainda maior.

Em usinas utility-scale no Nordeste com tracker + bifacial + brita branca, a combinação pode atingir ganhos de geração de 30 a 38% em relação ao baseline de sistema fixo com painel monofacial. Isso representa um aumento expressivo da receita sem ampliar a área do terreno.

Custo do tracker: R$ 500 a R$ 800/kWp instalado, dependendo da densidade do sistema e do terreno. Para um projeto de 10 MWp, o investimento adicional em trackers é de R$ 5 a R$ 8 milhões, mas a receita adicional de 22% ao longo de 25 anos pode ser de R$ 40 a R$ 70 milhões — um retorno muito atrativo.

Certificação e garantias dos módulos bifaciais

A escolha de módulos bifaciais exige atenção às certificações. Além das certificações padrão (IEC 61215 para desempenho e IEC 61730 para segurança), módulos bifaciais devem ter:

  • IEC 60904-1-1: Medição de corrente e tensão para módulos bifaciais — garante que os dados do datasheet foram medidos com o método correto
  • IEC 60904-3: Procedimento de medição que considera a contribuição bifacial

Fabricantes que não mencionam essas normas podem estar vendendo módulos “bifaciais” com fator de bifacialidade real bem abaixo do anunciado.

Ao solicitar orçamentos, peça ao fornecedor o resultado dos testes IEC 60904-1-1 para o modelo específico — não apenas a afirmação de que é “bifacial”. O fator de bifacialidade real pode variar de 65% (módulos de menor qualidade) a 95% (HJT premium), e essa diferença impacta diretamente o ganho de geração que você pode esperar.

Para sistemas residenciais instalados em telhado, a bifacialidade raramente é determinante na escolha do módulo — a orientação, a inclinação e a ausência de sombreamento têm impacto muito maior. Mas para usinas em solo com boa superfície reflexiva, o ganho bifacial de 5 a 12% pode ser a diferença entre um projeto economicamente viável e um projeto excelente.

Fontes e referências