String box, DPS e fusivel: protecao eletrica do sistema solar
Como proteger seu sistema fotovoltaico contra surtos, curto-circuito e sobrecarga. Norma NBR 16690 atualizada.
Por que a proteção elétrica é indispensável em sistemas fotovoltaicos?
Um sistema fotovoltaico sem proteção elétrica adequada é uma bomba-relógio. Ao contrário de outros equipamentos elétricos que podem ser desligados ao menor sinal de problema, os painéis solares continuam gerando tensão elétrica enquanto houver luz solar — inclusive durante uma tempestade com raios, no momento de uma manutenção ou em caso de curto-circuito. Essa característica torna a proteção elétrica não apenas desejável, mas obrigatória tanto pelas normas técnicas quanto pelo bom senso.
Os componentes de proteção — string box, DPS, fusíveis, disjuntores e aterramento — custam, juntos, menos de 5% do valor total do sistema. E evitam prejuízos que podem chegar a dezenas de milhares de reais, além de riscos graves à segurança de moradores e técnicos de manutenção.
Quais normas regulam a proteção elétrica de sistemas fotovoltaicos?
A proteção elétrica de sistemas fotovoltaicos no Brasil é regulada por um conjunto de normas técnicas complementares, cada uma cobrindo um aspecto específico da instalação:
- NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos: requisitos de projeto. É a norma principal para a parte CC (corrente contínua) do sistema, cobrindo dimensionamento de cabos, proteção contra sobrecorrente, seccionamento e aterramento.
- NBR 5410:2004 — Instalações elétricas de baixa tensão. Regula a parte CA (corrente alternada) após o inversor, incluindo disjuntores, aterramento e instalações prediais.
- NBR 16274:2014 — Sistemas fotovoltaicos conectados à rede: requisitos mínimos para documentação, ensaios de comissionamento e inspeção.
- NBR 5419:2015 — Proteção contra descargas atmosféricas. Define os requisitos de SPDA (sistema de proteção contra descargas atmosféricas) e a compatibilidade com sistemas fotovoltaicos.
- IEC 62109 — Segurança de inversores fotovoltaicos: requisitos de projeto e ensaios para equipamentos que convertem CC em CA.
O não cumprimento dessas normas pode resultar em negativa de seguro em caso de sinistro, impossibilidade de conexão à rede da distribuidora e responsabilidade civil do instalador em caso de acidente.
O que é a string box e quais componentes ela abriga?
A string box — também chamada de caixa de junção ou combiner box — é o componente que fica entre os painéis solares e o inversor. Ela centraliza as conexões das strings (conjuntos de painéis em série) e abriga os dispositivos de proteção do lado CC do sistema.
DPS CC (Dispositivo de Proteção contra Surtos)
O DPS protege o sistema contra surtos de tensão causados por descargas atmosféricas — diretas ou induzidas. Mesmo sem um raio cair diretamente no telhado, um raio próximo pode induzir surtos de centenas de volts nos cabos, danificando o inversor e os módulos.
Especificações mínimas conforme NBR 16690:
- Tipo II (proteção contra surtos induzidos)
- Tensão máxima de operação contínua (Uc) ≥ 1.000 V CC
- Corrente de descarga nominal (In) ≥ 20 kA
- Corrente máxima de descarga (Imax) ≥ 40 kA
O DPS possui indicador visual (janela colorida): verde indica operacional, vermelho indica esgotado e deve ser substituído imediatamente.
Fusível CC de string
O fusível protege cada string contra sobrecorrente em caso de curto-circuito ou falha de módulo. A NBR 16690 exige fusível de string quando o sistema possui 3 ou mais strings em paralelo — porque sem fusível, as outras strings podem alimentar a corrente de falha e causar incêndio.
Especificações típicas:
- Tensão nominal ≥ 1.000 V CC
- Corrente calibrada para 125–150% da corrente de curto-circuito da string (Isc)
- Padrão gPV (fotovoltaico) — fusíveis convencionais não podem ser usados em CC
Seccionadora CC (chave de desconexão)
Permite desconectar os painéis do inversor com segurança para manutenção. Sem essa chave, o técnico de manutenção trabalharia em um circuito energizado — risco grave de choque elétrico em sistemas com tensão de 400–600 V CC.
A seccionadora deve ser do tipo rotativo, com trava de segurança, e suportar a tensão máxima do string (Voc máximo com temperatura mínima).
Dimensionamento elétrico: como fazer corretamente
O dimensionamento dos componentes elétricos é tão importante quanto a escolha dos painéis. Um cabo subdimensionado gera aquecimento, perda de potência e risco de incêndio. Um DPS subdimensionado não protege o sistema. Um fusível superdimensionado não abre quando deveria.
Cabos CC
A norma NBR 16690 define que a seção mínima dos cabos CC deve ser calculada para:
- Perda de tensão máxima de 1,5% (para strings de até 100 m)
- Capacidade de condução de corrente ≥ 1,25 × Isc da string
- Resistência à temperatura de 90°C e à radiação UV
Para um sistema típico de 5 kWp com strings de Isc = 14 A:
- Corrente de projeto: 14 A × 1,25 = 17,5 A
- Seção mínima para cabos em temperatura ambiente de 40°C: 4 mm² (cobre)
- Para percursos longos (>30 m): considerar 6 mm² para reduzir perdas
Cabos CA
Dimensionados conforme NBR 5410, tabela de capacidade de condução por seção e temperatura. Para um inversor de 5 kW monofásico (corrente nominal ~22 A):
- Seção mínima: 4 mm² em conduite enterrado ou 2,5 mm² em eletroduto na parede
- Proteção: disjuntor bipolar de 25–32 A com curva C
Proteção no lado CA: disjuntores e DPS de saída
Após o inversor, o sistema também precisa de proteção:
DPS CA: Instalado no quadro de distribuição residencial, protege o inversor e os equipamentos da casa contra surtos vindos da rede elétrica da concessionária. Especificação: Tipo II, 275 V (monofásico) ou 440 V (trifásico), In ≥ 20 kA.
Disjuntor bipolar ou tripolar: Protege o circuito CA contra sobrecorrente. Deve ser dimensionado para 125% da corrente nominal do inversor e instalado o mais próximo possível do barramento do quadro.
Seccionadora CA: Permite desconectar o inversor da rede elétrica da concessionária. Exigida pela maioria das distribuidoras no processo de homologação e essencial para o procedimento de manutenção segura.
Aterramento: a proteção que toca a terra
Todo sistema fotovoltaico precisa de aterramento adequado conforme as NBR 5410 e NBR 16690. O aterramento cumpre duas funções essenciais: proteger as pessoas contra choque elétrico em caso de falha de isolamento e fornecer caminho de baixa impedância para a descarga de surtos atmosféricos.
O que deve ser aterrado
- Estrutura metálica dos painéis (perfis de alumínio)
- Carcaças dos inversores
- Quadro metálico da string box
- Condutor de proteção (PE) em todos os circuitos CA
O condutor de aterramento (verde-amarelo) deve ter seção mínima de 6 mm² para sistemas até 20 kWp e ser conectado à malha de aterramento existente na edificação — ou à haste de aterramento instalada especificamente para o sistema solar.
Exemplo prático de aterramento para um sistema de 6 kWp em São Paulo
Um sistema típico de 6 kWp instalado em residência unifamiliar em São Paulo exige:
- 2 hastes de aterramento de 5/8” × 3 m (resistência de terra ≤ 10 Ω, conforme NBR 5419)
- Condutor de aterramento de 6 mm² interligando estrutura dos painéis, string box e quadro
- DPS de Classe I na string box (para proteção contra descargas diretas) quando o sistema for exposto em telhado descoberto
- Equipotencialização de todas as massas metálicas com barra de equipotencialização no quadro
Marcas de referência e custos estimados
DPS CC
- Clamper VCL-40 Solar: ~R$ 180 a R$ 220 (por polo)
- Finder 7P.22: ~R$ 150 a R$ 190 (por polo)
- ABB OVR T2 40 1000 P: ~R$ 200 a R$ 260 (por polo)
Fusível CC de string
- Bussmann PV 15A/1000V: ~R$ 25 a R$ 40 (por unidade)
- Suntree 20A/1000V gPV: ~R$ 20 a R$ 35 (por unidade)
String box completa
- Suntree 2 strings + DPS + fusível: ~R$ 400 a R$ 600
- PHB Solar 4 strings completa: ~R$ 700 a R$ 1.000
- ProSolar 6 strings monitorada: ~R$ 1.200 a R$ 1.800
O custo total de proteção elétrica (string box, DPS CA, disjuntores e aterramento) para um sistema de 5–6 kWp fica entre R$ 800 e R$ 1.500 — menos de 5% do custo total do sistema.
Quando inspecionar e substituir os DPS
O DPS tem vida útil limitada — cada surto descarregado “consome” parte da capacidade protetora. A maioria dos DPS modernos possui indicador visual:
- Janela verde: DPS operacional
- Janela vermelha: DPS esgotado — deve ser substituído imediatamente
Inspecione visualmente o DPS:
- A cada 12 meses, durante a manutenção anual do sistema
- Após tempestades fortes com raios próximos, mesmo sem sinal visível de dano
- Sempre que o inversor apresentar falhas inexplicáveis, pois um DPS esgotado pode não ter protegido adequadamente contra um surto anterior
A substituição do DPS é simples e barata — R$ 150 a R$ 260 por unidade — e deve ser feita sem demora, pois o sistema fica desprotegido até a troca.
Fontes e referências
- ANEEL — Regulação de Sistemas Fotovoltaicos — resolução normativa e procedimentos de conexão à rede
- ABSOLAR — Guia de Instalação de Sistemas Fotovoltaicos — boas práticas e normas aplicáveis ao setor solar brasileiro
- INPE — Atlas de Irradiação Solar do Brasil — dados de irradiação e incidência de raios por região para dimensionamento de proteção atmosférica