DPS tipo II em sistema solar: por que e obrigatorio e como dimensionar
O dispositivo de protecao contra surtos e exigido pela NBR 5410 e NBR 16690. Veja como escolher e instalar.
O que é o DPS e por que ele é tão importante em sistemas solares?
O DPS — Dispositivo de Proteção contra Surtos — é um componente de segurança que protege inversores, módulos e toda a instalação elétrica contra sobretensões causadas por descargas atmosféricas (raios) e por chaveamento de cargas na rede elétrica.
Sem DPS, um surto de 6 kV chegando ao inversor queima a placa de entrada — reparo de R$ 2.000 a R$ 5.000, quando a troca do DPS custa apenas R$ 150 a R$ 500. A matemática do investimento em proteção é irrefutável.
O Brasil é o país com maior índice de raios do mundo — mais de 78 milhões de descargas por ano, segundo o ELAT/INPE. Para sistemas solares, que têm longas strings de cabos CC expostas no telhado, a proteção contra surtos não é opcional — é obrigatória pela NBR 16690 e NBR 5410.
Por que o DPS é especialmente crítico em sistemas solares?
Os cabos CC de um sistema solar têm características que os tornam vulneráveis a surtos:
Comprimento: Cabos CC vão do telhado ao inversor — tipicamente 10 a 30 metros. Esse comprimento atua como antena para absorver energia eletromagnética de descargas próximas.
Alta tensão: Strings de 6 a 12 painéis geram 250 a 600 V CC — combinados com um surto, podem resultar em valores destrutivos.
Localização exposta: Módulos e cabos CC ficam no ponto mais alto da edificação — exatamente onde a energia de um raio próximo se induz com maior intensidade.
Ausência de neutro no lado CC: Um surto no barramento CC vai diretamente para os terminais do inversor sem a atenuação que o neutro oferece na CA.
Onde instalar o DPS em um sistema solar?
A NBR 16690 é clara: DPS é obrigatório nos dois lados do inversor.
1. Lado CC (antes do inversor) — DPS tipo II CC: Protege contra surtos induzidos no cabeamento DC. Instalado na string box, no próprio inversor (alguns têm DPS embutido) ou no quadro de proteção CC.
2. Lado CA (depois do inversor) — DPS tipo II CA: Protege contra surtos vindos da rede de distribuição. Instalado no quadro de distribuição da residência, no barramento de saída do inversor.
3. No quadro geral (se houver SPDA) — DPS tipo I: Se a edificação tem sistema de proteção contra descargas atmosféricas (para-raios), o quadro geral deve ter DPS tipo I para absorver a energia direta de descargas.
Como dimensionar o DPS corretamente?
| Parâmetro | Lado CC | Lado CA (monofásico 220V) |
|---|---|---|
| Tipo | II | II |
| Uc mínima | 1,2 × Voc máxima da string | 275 V (fase-neutro) |
| In (corrente nominal de descarga) | 20 kA | 20 kA |
| Imax (corrente máxima de descarga) | 40 kA | 40 kA |
Exemplo de dimensionamento para string de 600 V Voc:
Uc mínima CC = 1,2 × 600 = 720 V
Escolha um DPS CC com Uc de 800 V para ter margem de segurança adequada.
Marcas e modelos de referência em 2026
Lado CC:
- Clamper VCL Solar CC 1000V — R$ 180 a R$ 220 (par com base)
- Finder 7P.30.8.800 — R$ 250 a R$ 320
- Phoenix Contact VAL-MS-T2 PV750 — R$ 300 a R$ 400
Lado CA (220V):
- Clamper VCL CA 275V — R$ 80 a R$ 120
- Siemens 5SD7 275V — R$ 150 a R$ 200
- ABB OVR T2 275V — R$ 130 a R$ 180
Custo total típico (par CC + par CA): R$ 300 a R$ 700.
O erro grave: instalar DPS sem fusível de backup
O DPS é um componente sacrificial — queima para proteger o sistema. Se queimar em modo de curto-circuito (modo de falha mais comum), pode causar incêndio no quadro se não houver proteção de backup.
Regra obrigatória: Instale sempre um fusível ou disjuntor de backup a montante do DPS (entre o barramento e o DPS).
Dimensionamento do backup:
- DPS CC: fusível DC de 12 a 16 A (fusíveis CA não funcionam para DC)
- DPS CA: disjuntor de 10 a 16 A
Quando o DPS precisa ser trocado?
Todos os DPS modernos têm indicador visual de status:
- Verde: DPS funcionando normalmente
- Vermelho: DPS foi acionado e queimou — troca obrigatória antes da próxima chuva com raios
- Amarelo: alerta — verificar com multímetro
Vida útil típica: 5 a 10 anos, dependendo do número de surtos absorvidos. Em regiões de alta incidência de raios (Centro-Oeste, Norte, Nordeste), troca preventiva a cada 5 anos é recomendada.
Custo de troca: R$ 150 a R$ 400 por conjunto completo — um investimento pequeno para proteger um inversor de R$ 3.000 a R$ 12.000 e todo o restante do sistema.
Lista de verificação anual do DPS
- Indicador visual do DPS CC: verde
- Indicador visual do DPS CA: verde
- Fusível de backup CC: íntegro (testado com multímetro)
- Conexões do DPS: firmes e sem sinais de oxidação
- DPS dentro do prazo de vida útil recomendado (menos de 5 anos em regiões de alto risco)
DPS em sistemas trifásicos: pontos de atenção adicionais
Sistemas fotovoltaicos conectados em rede trifásica (muito comuns em instalações comerciais e industriais) exigem proteção em todas as fases. Um único DPS monofásico não é suficiente.
Configuração correta para trifásico:
- Lado CA trifásico: 3 DPS individuais (um por fase) ou um módulo trifásico integrado. O neutro também deve ser protegido — use DPS 4P (3 fases + neutro).
- Uc para rede trifásica 220/380 V: mínimo de 275 V fase-neutro (440 V fase-fase). Use módulos com Uc de 440 V fase-fase.
- Fusível de backup trifásico: disjuntor tripolar de 10 a 16 A a montante do conjunto de DPS.
O custo do conjunto completo de DPS para um sistema trifásico fica entre R$ 600 e R$ 1.200 — ainda muito abaixo do custo de substituição de um inversor trifásico (R$ 8.000 a R$ 25.000).
Como saber se o inversor já tem DPS embutido?
Muitos inversores modernos já incluem DPS internamente, especialmente para a proteção do lado CC. Antes de comprar DPS externo, consulte o manual técnico do inversor e verifique:
- Proteção CC integrada: Se o inversor tiver “integrated DC SPD” ou “built-in surge protection” na especificação, o DPS CC pode não ser necessário — mas o DPS CA no quadro de distribuição ainda é obrigatório por norma.
- Nível de proteção Up: O inversor especifica o nível de proteção de surto em V (tipicamente Up ≤ 2,5 kV). Valores menores indicam proteção mais eficiente.
- Certificado de conformidade: Mesmo com DPS interno, exija do fabricante o certificado que comprova conformidade com a IEC 61643-31 (DPS para sistemas FV).
Fabricantes como Fronius, SMA e Huawei oferecem inversores com DPS CC integrado. Já fabricantes como Growatt e Deye geralmente oferecem o DPS como acessório opcional. Verifique sempre antes de projetar.
Aterramento e DPS: a dupla inseparável
O DPS só funciona corretamente se o sistema de aterramento estiver adequado. A corrente de surto que o DPS absorve precisa ser escoada com eficiência para a terra — e um aterramento ruim transforma o DPS num componente ineficaz.
Resistência de aterramento máxima recomendada para sistemas FV: 10 Ω (conforme NBR 5419). Idealmente abaixo de 5 Ω.
Sinais de aterramento inadequado:
- Solo muito seco (resistividade alta): comum no Cerrado e no Nordeste nos meses secos
- Haste de terra apenas na areia ou pedra: resistividade altíssima
- Aterramento não verificado há mais de 5 anos
Se o aterramento estiver fora de especificação, instalar DPS é como colocar para-raios sem conectar ao solo — a proteção é ilusória. Meça a resistência de aterramento com telurômetro e, se necessário, adicione mais hastes ou aplique tratamento químico (sal de aterramento ou bentonita) para reduzir a resistividade do solo.
Fontes e referências
- ABSOLAR — Guia técnico de proteção elétrica de sistemas fotovoltaicos: recomendações de proteção contra surtos para sistemas residenciais e comerciais no Brasil
- ANEEL — NBR 16690:2019 e NBR 5410:2004: normas técnicas obrigatórias para dimensionamento e instalação de DPS em sistemas fotovoltaicos conectados à rede
- INPE/ELAT — Mapa de incidência de raios no Brasil: dados de densidade de descargas por município para avaliação do nível de risco e dimensionamento correto do sistema de proteção