Solar flutuante no Brasil: como funciona e por que esta crescendo
O FPV (floating photovoltaic) aproveita reservatorios existentes para gerar energia. Veja vantagens, custos e projetos reais no Brasil.
O que é solar flutuante e por que o Brasil tem potencial enorme?
Solar flutuante — ou FPV, do inglês Floating Photovoltaic — é a tecnologia de instalar painéis fotovoltaicos sobre estruturas flutuantes que ficam sobre reservatórios, lagos, represas e até lagoas de tratamento de efluentes. Os módulos ficam fixados em plataformas de HDPE (polietileno de alta densidade) ou alumínio, ancoradas ao fundo do reservatório por cabos e correntes. A energia gerada é transmitida por cabeamento subaquático ou aéreo até inversores instalados na margem.
O Brasil é o país com maior potencial inexplorado de solar flutuante no mundo, por dois motivos:
1. Quantidade de reservatórios: O Brasil tem mais de 180.000 reservatórios mapeados pelo SNGRH (Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos). A maioria deles não tem nenhum uso energético. Se apenas 5% da superfície desses reservatórios fosse coberta por FPV, a capacidade instalada seria equivalente a mais de 30 GWp — o dobro de toda a capacidade solar instalada no Brasil em 2026.
2. Sinergia com hidrelétricas: O Brasil tem a terceira maior matriz hidrelétrica do mundo. As hidrelétricas produzem mais à noite e menos durante o dia quando precisam “guardar água”. FPV sobre os reservatórios das hidrelétricas gera durante o dia, complementando a geração hidrelétrica e reduzindo a necessidade de acionamento de termelétricas.
Quais são as vantagens técnicas do FPV?
O solar flutuante tem vantagens específicas que o diferenciam do solar em solo:
1. Resfriamento natural dos módulos: A evaporação da água mantém os módulos de 5 a 10°C mais frios do que em instalações terrestres equivalentes. Como a eficiência dos painéis cai 0,35 a 0,45% por grau Celsius acima de 25°C, essa diferença de temperatura representa ganho de 2 a 4% na geração anual.
Em Minas Gerais, testes da Cemig no reservatório do Batalha mediram ganho médio de 7,2% na geração anual dos módulos flutuantes em comparação com módulos idênticos instalados em solo a 200 metros da margem, nas mesmas condições de irradiação.
2. Redução da evaporação: A cobertura dos módulos sobre a superfície do reservatório reduz a evaporação em 60 a 80% na área coberta. No Semiárido nordestino, onde a evaporação anual pode superar 2.000 mm, isso representa a preservação de 500 a 1.000 m³ de água por hectare coberto — água crítica para irrigação durante a seca.
Para um reservatório de 100 hectares com 20% de cobertura FPV: 20 hectares × 700 m³/ha = 14.000 m³ de água preservada por ano — suficiente para irrigar 7 a 10 hectares de cultura durante o período mais seco.
3. Aproveitamento de área sem conflito de uso do solo: O terreno é substituído pela superfície do reservatório — que já existe, não tem custo de arrendamento equivalente e não compete com agricultura ou preservação ambiental terrestre.
Quais são os custos do FPV no Brasil?
O custo do solar flutuante é maior que o solar em solo convencional, principalmente pela estrutura flutuante e pelos desafios de instalação sobre a água.
Custo instalado em 2026:
- FPV de pequeno porte (< 1 MWp): R$ 7.000 a R$ 8.500/kWp
- FPV de médio porte (1 a 10 MWp): R$ 6.000 a R$ 7.500/kWp
- FPV utility-scale (> 10 MWp): R$ 5.500 a R$ 6.500/kWp
Comparação com solar em solo (2026):
- Solar em solo pequeno: R$ 4.500 a R$ 5.500/kWp
- Solar em solo utility-scale: R$ 3.800 a R$ 4.500/kWp
- FPV custa 30 a 45% a mais
A estrutura flutuante (plataformas de HDPE, sistema de ancoragem, cabeamento subaquático) responde por R$ 1.500 a R$ 2.500/kWp do custo total — o restante é semelhante ao solar em solo (módulos, inversores, instalação elétrica).
O custo adicional do FPV se justifica quando:
- O terreno adjacente ao reservatório tem alto valor ou uso concorrente
- O ganho de geração pelo resfriamento é significativo (reservatórios em regiões quentes)
- A preservação da água do reservatório tem valor econômico (irrigação, abastecimento)
- Há sinergia com geração hidrelétrica existente (compartilhamento de infraestrutura de transmissão)
Projetos reais no Brasil em 2027
Usina de Sobradinho (BA) — 1 MWp: Primeira usina comercial FPV do Brasil, em operação desde outubro de 2025 no lago da hidrelétrica de Sobradinho, operado pela CHESF. A usina gerou 1.650 MWh no primeiro ano de operação — 10% acima da estimativa de projeto — graças ao resfriamento excepcional das águas do São Francisco.
Usina do Batalha (MG) — 5 MWp: A Cemig instalou 5 MWp flutuantes no reservatório da UHE Batalha (GO/MG) em 2027. O projeto serve como laboratório de pesquisa em parceria com a UFMG para medir os impactos hidrológicos e biológicos da cobertura FPV.
Projeto Tucuruí (PA) — 50 MWp (previsto para 2029): O projeto mais ambicioso de FPV do Brasil está sendo desenvolvido pela Eletronorte no imenso lago da hidrelétrica de Tucuruí, um dos maiores do mundo. Os 50 MWp gerarão durante o dia e a hidrelétrica operará com mais água à noite — complementaridade energética perfeita.
Lagoa de efluentes industriais — casos emergentes: Uma tendência crescente é o FPV sobre lagoas de tratamento de efluentes industriais e ETEs (Estações de Tratamento de Esgotos). A cobertura reduz a proliferação de algas, diminui a evaporação dos efluentes e gera energia para a própria operação da ETE. Empresas como Sabesp e Sanepar já têm projetos-piloto em andamento.
Quais são as limitações do FPV?
Restrições ambientais: A cobertura de mais de 30 a 40% da lâmina d’água pode prejudicar a fotossíntese aquática, reduzir o oxigênio dissolvido e afetar a fauna aquática (peixes, aves, vegetação aquática). Estudos de impacto ambiental são obrigatórios para projetos acima de 1 MWp, e o licenciamento ambiental pode ser demorado.
Variação do nível do reservatório: Reservatórios de hidrelétricas têm variação anual de nível de 10 a 40 metros, dependendo do regime hidrológico. O sistema de ancoragem precisa ser projetado para acompanhar essa variação sem romper. Isso eleva o custo e a complexidade do projeto.
Manutenção sobre a água: Limpar módulos, inspecionar cabos e substituir componentes requer barcos, equipamentos de segurança específicos e equipe treinada. O custo de O&M (operação e manutenção) é 20 a 30% maior que em sistemas terrestres equivalentes.
Corrosão em ambiente úmido: Os componentes elétricos (caixas de conexão, inversores de string próximos à água) precisam de proteção IP68 e materiais resistentes à corrosão por umidade constante.
O mercado global de FPV e as perspectivas para o Brasil
O solar flutuante é um dos segmentos de crescimento mais rápido no mercado fotovoltaico global. Em 2023, a capacidade instalada de FPV no mundo superou 5 GWp; em 2027, ultrapassou 20 GWp. A China lidera com 60% da capacidade global, seguida por Coreia do Sul, Japão e Países Baixos.
O Brasil está ingressando nesse mercado com 5 a 10 anos de atraso em relação à Ásia, mas com vantagens únicas: maior disponibilidade de reservatórios, maior irradiação solar e sinergia natural com a matriz hidrelétrica. A ABSOLAR projeta 500 MWp de FPV instalados no Brasil até 2030 — número ainda modesto diante do potencial, mas representando crescimento exponencial em relação aos 10 MWp de 2027.
Os principais atores do mercado brasileiro de FPV são: Ciel & Terre (francesa, líder global com o sistema Hydrelio), Isifloating (portuguesa), BayWa r.e. (alemã), Solar Aqua Brasil (nacional) e start-ups que desenvolvem estruturas flutuantes com materiais locais para reduzir custos.
Integração FPV com hidrogênio verde
Uma aplicação emergente muito discutida é a combinação de FPV com eletrolisadores de hidrogênio verde instalados na margem dos reservatórios. O sol gera eletricidade sobre a água; a eletricidade alimenta o eletrolisador que divide a molécula de água em hidrogênio e oxigênio; o hidrogênio é comprimido e transportado por duto ou cilindros para uso industrial.
O Ceará está estruturando o Complexo do Pecém como hub de hidrogênio verde, onde FPV sobre reservatórios próximos à costa pode alimentar eletrolisadores com energia solar de custo mínimo. A água do reservatório serve como insumo do eletrolisador (após tratamento) e como superfície geradora — uma sinergia única que pode tornar o hidrogênio verde brasileiro competitivo globalmente.