Producao solar por regiao do Brasil: quanto gera 1 kWp em cada estado
Mapa de producao solar por estado brasileiro. HSP, geracao mensal e anual por kWp, melhores e piores regioes e dados do Atlas Solarimetrico INPE.
O Brasil tem irradiação solar de dar inveja ao resto do mundo
O pior estado brasileiro para energia solar (Amazonas, HSP 4,1) tem irradiação melhor que a Alemanha inteira (HSP 2,6–3,2). E a Alemanha é o país com mais solar per capita da Europa. O Brasil é privilegiado — e mesmo assim aproveita uma fração do potencial.
Para que você tenha uma referência prática: a Alemanha, com todo o seu parque solar instalado de mais de 70 GW, gera energia solar em condições piores do que a Amazônia, a região brasileira com menor incidência. Isso não significa que instalar solar em Manaus é igual a instalar em Fortaleza — mas significa que, mesmo nas condições mais desfavoráveis do Brasil, o sistema se paga.
O que é HSP e por que é a métrica que importa
HSP (Horas de Sol Pico) é o número de horas por dia em que a irradiação equivale a 1.000 W/m². Se o HSP é 5,0, significa que você recebe o equivalente a 5 horas de sol pleno por dia — mesmo que o sol brilhe 10 ou 12 horas em intensidade variável.
Por que não usar “horas de sol” diretamente: Um dia com 12 horas de sol, mas com sol fraco de manhã e à tarde e apenas 4 horas de sol intenso ao meio-dia, equivale a um HSP de 4,0 — não 12. O HSP normaliza a intensidade da irradiação para comparações justas entre regiões.
Fórmula prática para calcular a geração:
Geração mensal (kWh) = Potência (kWp) × HSP × 30 dias × 0,80
O fator 0,80 representa as perdas totais do sistema: temperatura dos painéis (~5%), perdas no cabeamento (~2%), eficiência do inversor (~2%), sujeira (~3%), sombreamento parcial e outras perdas (~8%).
Exemplo: 6,6 kWp em São Paulo (HSP 4,6): 6,6 × 4,6 × 30 × 0,80 = 728 kWh/mês
Geração de 1 kWp por estado (mensal e anual)
| Estado | HSP | Geração mensal (kWh/kWp) | Geração anual (kWh/kWp) |
|---|---|---|---|
| PI | 5,7 | 137 | 1.642 |
| RN | 5,7 | 137 | 1.642 |
| CE | 5,6 | 134 | 1.613 |
| PB | 5,6 | 134 | 1.613 |
| BA | 5,5 | 132 | 1.584 |
| PE | 5,5 | 132 | 1.584 |
| SE | 5,4 | 130 | 1.555 |
| AL | 5,3 | 127 | 1.526 |
| GO | 5,3 | 127 | 1.526 |
| MG | 5,2 | 125 | 1.498 |
| DF | 5,2 | 125 | 1.498 |
| MA | 5,1 | 122 | 1.469 |
| MS | 5,1 | 122 | 1.469 |
| TO | 5,1 | 122 | 1.469 |
| MT | 5,0 | 120 | 1.440 |
| ES | 4,8 | 115 | 1.382 |
| SP | 4,6 | 110 | 1.325 |
| RJ | 4,6 | 110 | 1.325 |
| PR | 4,5 | 108 | 1.296 |
| AP | 4,5 | 108 | 1.296 |
| RR | 4,5 | 108 | 1.296 |
| PA | 4,4 | 106 | 1.267 |
| RO | 4,3 | 103 | 1.238 |
| RS | 4,3 | 103 | 1.238 |
| SC | 4,2 | 101 | 1.210 |
| AC | 4,2 | 101 | 1.210 |
| AM | 4,1 | 98 | 1.181 |
Fonte: Atlas Solarimétrico INPE/CRESESB, médias anuais. Geração calculada com fator de performance de 80%.
A diferença entre o melhor e o pior
O Piauí (HSP 5,7) gera 39% mais energia que o Amazonas (HSP 4,1) com o mesmo sistema. Em números: um sistema de 6,6 kWp gera 10.837 kWh/ano no PI e 7.795 kWh/ano no AM. Diferença de 3.042 kWh por ano — o equivalente a R$ 2.586/ano considerando tarifa de R$ 0,85/kWh.
Em 25 anos, com reajuste tarifário de 8% ao ano, essa diferença de geração representa aproximadamente R$ 168.000 a mais de economia para o piauiense em relação ao amazonense.
Mas essa diferença é parcialmente compensada pelo custo de instalação: instalar solar em Manaus é mais caro (frete, menos concorrência) que no Nordeste. O payback acaba sendo parecido em termos percentuais — o que muda é o valor absoluto da economia acumulada em 25 anos.
Como usar esses dados para dimensionar um sistema
Se você sabe seu consumo mensal em kWh e seu estado, pode calcular a potência necessária:
Potência necessária (kWp) = Consumo mensal (kWh) ÷ Geração mensal por kWp
Exemplo: família em Cuiabá (MT) com consumo de 480 kWh/mês: 480 ÷ 120 = 4,0 kWp de sistema necessário
Essa é uma estimativa. O dimensionamento correto considera também a tarifa mínima (que você paga mesmo zerando a conta), perdas específicas do telhado e o perfil de consumo ao longo do dia.
Variação sazonal: o inverno castigou o Sul
A média anual esconde uma variação enorme entre verão e inverno, especialmente no Sul:
Porto Alegre (RS)
| Mês | HSP | Geração 6,6 kWp |
|---|---|---|
| Janeiro | 5,3 | 869 kWh |
| Abril | 4,0 | 655 kWh |
| Junho | 2,9 | 475 kWh |
| Setembro | 3,8 | 623 kWh |
| Diferença jan/jun | -45% | -394 kWh |
Fortaleza (CE)
| Mês | HSP | Geração 6,6 kWp |
|---|---|---|
| Agosto | 6,3 | 1.032 kWh |
| Março | 5,0 | 820 kWh |
| Diferença ago/mar | -21% | -212 kWh |
No Sul, a variação entre o melhor e o pior mês é de 45%. No Nordeste, é de 21%. Isso importa porque no inverno do Sul você consome mais (aquecedor, dias frios, mais iluminação) e gera menos. Os créditos de energia do verão cobrem o déficit — mas a conta de junho e julho pode assustar se você não entender o mecanismo de compensação.
O sistema de net metering da ANEEL funciona exatamente para esse caso: os créditos gerados no verão (quando o sistema gera mais do que o consumo) ficam guardados por até 60 meses e são usados nos meses de déficit. É como uma “poupança de energia” que o sistema faz automaticamente.
Nordeste: campeão absoluto de geração
O Nordeste é a região com maior geração solar do Brasil — e do mundo em termos de equilíbrio entre irradiação e custo de instalação. Mas há nuances importantes:
Piauí e Rio Grande do Norte (HSP 5,7): Líderes absolutos. A combinação de latitude baixa (pouca variação sazonal) e clima seco (poucas nuvens) resulta na melhor irradiação média do hemisfério sul.
Ceará e Paraíba (HSP 5,6): Apenas marginalmente abaixo dos líderes. Fortaleza e João Pessoa têm microclimas litorâneos com cerração matinal nos meses de maior umidade, mas a média anual continua excelente.
Bahia (HSP 5,5): O estado com maior variação interna do Nordeste — o litoral (Salvador, Ilhéus) tem HSP de 4,8 a 5,0, enquanto o sertão (Juazeiro, Paulo Afonso) atinge 5,7 a 6,0.
Sudeste: potencial sub-aproveitado
O Sudeste concentra o maior mercado de energia solar do Brasil não pelo HSP, mas pelo volume de consumidores com conta de luz alta.
Minas Gerais: O destaque. HSP de 5,2 na média estadual, com norte de MG atingindo 5,7 — comparável ao Nordeste. Combinado com a tarifa mais cara do estado na CEMIG (R$ 0,92/kWh), MG tem o melhor ROI do Sudeste.
São Paulo: HSP de 4,6 na capital, mas 5,0 a 5,2 no interior (Ribeirão Preto, Uberaba, Bauru). Quem mora no interior paulista tem condições muito melhores do que os números da capital sugerem.
Rio de Janeiro: Surpreendentemente bom no norte do estado (Campos dos Goytacazes, HSP 4,9) e na Baixada Fluminense (HSP 4,7). O litoral serrano tem mais nuvens e HSP mais baixo.
Dentro de cada estado: microclima importa
O HSP estadual é uma média. Dentro de MG, por exemplo:
- Norte de Minas (Montes Claros): HSP 5,5–5,8 — tão bom quanto o Nordeste
- Triângulo Mineiro (Uberlândia): HSP 5,2–5,4 — excelente
- Zona da Mata (Juiz de Fora): HSP 4,5–4,8 — mais nublado
A mesma variação existe em SP:
- Interior paulista (Ribeirão Preto): HSP 5,0–5,2
- Litoral Norte (Ubatuba): HSP 3,8–4,2 (muito nublado — uma das regiões mais chuvosas do Brasil)
- Capital: HSP 4,5–4,6
Para dados precisos da sua cidade, use o simulador de geração por região ou consulte diretamente o Atlas Solarimétrico do INPE (CRESESB), que tem dados por coordenadas geográficas com resolução de 10 km.
O que esses números significam na prática
Se você mora em um estado com HSP 4,5+, energia solar residencial se paga em menos de 5 anos. Se mora em estado com HSP 5,0+, o payback fica abaixo de 4 anos. E se mora no Nordeste com HSP 5,5+, você tem o melhor cenário de energia solar residencial do planeta.
Mesmo no “pior” estado (AM, HSP 4,1), um sistema de 6,6 kWp gera ~7.800 kWh/ano — suficiente para cobrir 650 kWh/mês de consumo. A energia solar funciona em todo o Brasil. A questão não é “se compensa”, é “quanto compensa”.
A diferença entre Manaus e Teresina não é de eficácia, mas de payback: 5,3 anos vs 3,2 anos. Em ambos os casos, após o payback, o sistema gera economia por mais 20 anos. O manauara vai economizar um pouco menos do que o piauiense em termos absolutos — mas vai economizar muito mais do que quem não tem solar.
Fontes e referências
- INPE/CRESESB — Atlas Solarimétrico do Brasil: banco de dados de irradiação solar com HSP médio anual e mensal por município — principal fonte dos dados desta tabela
- ABSOLAR — Panorama da Energia Solar Fotovoltaica no Brasil 2026: dados de capacidade instalada por estado e evolução do mercado
- ANEEL — Resolução Normativa 1.059/2023: normas do sistema de compensação de energia (net metering) utilizado para créditos sazonais