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Energia solar no agronegocio: irrigacao por pivots com FV

Dimensionamento de sistemas solares para pivots centrais. Consumo tipico, potencia e payback.

Por Redação Editorial CustoSolar

O Brasil é o terceiro maior produtor agrícola do mundo e um dos líderes globais em irrigação por pivô central. Estima-se que existam mais de 40.000 pivôs operando no país, concentrados no Cerrado (Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso do Sul). Cada pivô central de 100 hectares consome entre 100 kW e 200 kW de potência elétrica — e opera, em média, 800 a 1.200 horas por safra. O resultado é uma conta de energia que frequentemente ultrapassa R$ 80.000 por safra por pivô. A energia solar fotovoltaica entrou nesse cenário como solução concreta para reduzir esse custo operacional de forma previsível e permanente.

Por que o pivô central é um caso ideal para solar?

A coincidência entre o horário de operação dos pivôs e o horário de maior geração solar é o principal fator que torna essa combinação tão eficiente. Pivôs são operados preferencialmente durante o dia — o período de maior evapotranspiração e de disponibilidade de mão de obra para monitoramento. Essa janela operacional (geralmente das 6h às 18h) coincide exatamente com a curva de geração de um sistema fotovoltaico.

Além disso, as fazendas do Cerrado estão localizadas nas regiões de maior irradiação solar do Brasil. Cidades como Barreiras (BA), Sorriso (MT), Rio Verde (GO) e Dourados (MS) registram irradiação horizontal global (GHI) entre 5,2 e 6,0 kWh/m²/dia — significativamente acima da média europeia (3,5-4,5 kWh/m²/dia) e mesmo de São Paulo (4,6 kWh/m²/dia). Dados do INPE confirmam que o Cerrado é uma das regiões com maior potencial solar do planeta.

O perfil de carga de um pivô também favorece o solar: é uma carga previsível, constante e de grande volume. Diferente de uma residência com picos imprevisíveis, o pivô liga e fica rodando por horas seguidas — comportamento ideal para dimensionar um sistema fotovoltaico com alta taxa de autoconsumo.

Como dimensionar solar para um pivô central?

O dimensionamento começa com o levantamento da potência instalada do pivô e das horas diárias de operação. Um pivô de 100 ha com motor de 150 kW operando 10 horas/dia consome 1.500 kWh/dia. Em 120 dias de safra, o consumo total é de 180.000 kWh por safra.

Exemplo real: fazenda em Rio Verde (GO)

Propriedade com 2 pivôs de 100 ha cada, motores de 150 kW, operando de setembro a março (180 dias):

  • Consumo por pivô por safra: 270.000 kWh
  • Consumo total anual: 540.000 kWh (considerando safra de verão e inverno)
  • Potência FV necessária (HSP 5,5 em Goiás): 540.000 / (5,5 x 365 x 0,80) = 337 kWp
  • Número de módulos (600 Wp): aproximadamente 562 módulos
  • Área necessária: ~2.800 m² (instalação em solo, próxima aos pivôs)
  • Investimento estimado: R$ 1,35 milhão (R$ 4.000/kWp)
  • Economia anual: R$ 450.000 (tarifa rural de R$ 0,83/kWh)
  • Payback: 3,0 anos
  • ROI em 25 anos: mais de 700%

Nesse cenário, o investimento em energia solar equivale ao custo de apenas 3 safras de energia elétrica. A partir do quarto ano, a energia é praticamente gratuita pelos próximos 22 anos.

Modalidades de instalação para pivôs

Sistema on-grid (conectado à rede): A opção mais comum. O sistema gera durante o dia e abate o consumo na conta de energia. Quando o pivô não está operando (entressafra), os créditos acumulados podem ser usados em outros pontos de consumo da propriedade. Exige que a propriedade tenha acesso à rede da distribuidora.

Sistema bombeamento solar direto (DC): Para fazendas sem rede elétrica ou com rede precária, é possível instalar sistemas de bombeamento solar em corrente contínua que alimentam diretamente o motor do pivô. Sem bateria, o pivô opera apenas com sol — mas isso geralmente não é um problema, pois o dimensionamento pode ser feito para as horas de pico solar.

Sistema híbrido com bateria: A opção mais cara, mas que garante operação noturna quando necessário. Com baterias de 200-500 kWh, é possível armazenar energia do meio-dia para operar o pivô nas primeiras e últimas horas do dia, maximizando as horas de irrigação. Indicado para culturas sensíveis ao estresse hídrico.

Quais são os principais custos e desafios?

Custo de instalação

A instalação em ambiente rural tem características específicas que diferem da instalação residencial:

  • Distância da subestação: Longas distâncias entre a usina solar e o ponto de conexão aumentam o custo de cabeamento. Um sistema de 300 kWp com cabo de 500 m custa R$ 30.000-50.000 a mais do que um sistema próximo à subestação.
  • Estrutura de solo: Em vez de estruturas de telhado, a maioria dos sistemas para pivôs usa estruturas fixas ou rastreadores de solo. Estruturas fixas custam R$ 80-120/m²; rastreadores uniaxiais custam R$ 200-350/m² mas aumentam a geração em 20-25%.
  • Proteção contra roubos: Painéis solares em área rural remota são alvo de furtos. O custo com monitoramento remoto, câmeras e cerca elétrica deve ser incluído no projeto.

Benefícios tributários específicos para o agronegócio

O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel e as políticas de crédito rural oferecem condições especiais para agricultores que investem em energia renovável. O Pronaf Verde e o Pronamp disponibilizam linhas de crédito com taxas de 4,0% a 6,0% ao ano para financiamento de sistemas solares em propriedades rurais — bem abaixo da taxa de mercado (10-12% ao ano). Além disso, a Lei 13.169/2015 isenta as operações de venda de energia por produtores rurais do PIS/Cofins, e equipamentos destinados à geração solar importados têm redução de IPI conforme a Resolução CAMEX vigente.

Como escolher entre sistema on-grid e off-grid?

A decisão entre on-grid e off-grid para pivôs depende de dois fatores principais: a qualidade da rede elétrica disponível e o perfil de operação.

Se a propriedade tem acesso à rede elétrica com qualidade razoável (menos de 5 interrupções mensais e tensão estável), o sistema on-grid é sempre mais econômico. O sistema de compensação de energia (net metering) permite que créditos gerados durante o dia e a semana de folga do pivô sejam usados em outros meses.

Se a rede é precária, com quedas frequentes e tensão flutuante (situação comum em áreas rurais remotas do Nordeste e Norte), o sistema híbrido com bateria pode ser mais econômico no longo prazo — especialmente considerando os danos aos equipamentos do pivô causados por variações de tensão.

O INPE registra que regiões como o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde a fronteira agrícola avança rapidamente, têm algumas das piores métricas de qualidade de rede do país. Para fazendas nessas regiões, sistemas híbridos com bateria de suporte são altamente recomendados.

Qual o impacto no custo de produção?

No Brasil, o custo de energia elétrica para irrigação representa, em média, 15-25% do custo total de produção de soja e milho em sistemas irrigados. Com o pivô alimentado por solar, esse custo cai para 2-4% no horizonte de 5 anos após a quitação do sistema, melhorando significativamente a competitividade da propriedade.

Para culturas de maior valor agregado — como horticultura irrigada, fruticultura e cafeicultura irrigada —, o peso da energia é ainda maior (30-40% do custo operacional), tornando o retorno do solar ainda mais rápido.

A ABSOLAR estima que o agronegócio brasileiro já tem mais de 3,5 GWp de capacidade solar instalada, com crescimento médio de 40% ao ano desde 2022. O potencial ainda a ser explorado é enorme: apenas os 40.000 pivôs existentes poderiam absorver mais de 8 GWp de capacidade solar se todos os proprietários adotassem a tecnologia.

Fontes e referências