Tecnico 6 min de leitura

Cabo solar: como dimensionar e qual marca escolher

Guia pratico de cabos solares DC. Secao por corrente, temperatura e comprimento. Prysmian Afumex vs Nexans TUV.

Por Redação Editorial CustoSolar

Por que o cabo solar merece tanta atenção quanto o painel e o inversor

No orçamento de um sistema fotovoltaico residencial, os cabos solares representam tipicamente 2 a 4% do custo total. Esse percentual pequeno leva muitos a tratá-los como commodity — “qualquer cabo de 6 mm² serve”. Esse raciocínio está errado e pode custar caro.

Um cabo solar inadequado pode provocar, ao longo de 25 anos de exposição:

  • Degradação da isolação por UV, gerando risco de curto-circuito e incêndio
  • Superaquecimento por subdimensionamento, reduzindo continuamente a eficiência do sistema
  • Falha de conector MC4 por incompatibilidade de diâmetro, causando arco elétrico
  • Não conformidade com a vistoria da distribuidora, atrasando ou inviabilizando a homologação

Este guia ensina como dimensionar corretamente os cabos CC de um sistema fotovoltaico e qual marca escolher para garantir segurança e durabilidade.

Normas que regem o cabo solar no Brasil

O dimensionamento e a especificação dos cabos de um sistema FV são definidos por um conjunto de normas técnicas que o engenheiro responsável precisa dominar:

  • NBR 16690:2019 — Instalações elétricas de arranjos fotovoltaicos: define os requisitos de projeto para o lado CC, incluindo dimensionamento de condutores, proteções e conectores
  • NBR 5410:2004 — Instalações elétricas de baixa tensão: aplicável ao lado CA (após o inversor), incluindo proteção contra sobrecorrente e curto-circuito
  • NBR 16274:2014 — Sistemas fotovoltaicos conectados à rede: requisitos mínimos de projeto, instalação e documentação
  • NBR 5419:2015 — Proteção contra descargas atmosféricas: aterramento e DPS para sistemas com exposição atmosférica
  • EN 50618 (norma europeia, referência para certificação): especificação técnica de cabos para sistemas FV, adotada como referência pelo mercado brasileiro

Como dimensionar o cabo solar CC corretamente

O dimensionamento de cabos CC em sistemas fotovoltaicos envolve dois critérios simultâneos que precisam ser satisfeitos:

Critério 1: capacidade de condução de corrente

O cabo deve suportar a corrente máxima sem superaquecer. Para sistemas FV, a corrente de dimensionamento no lado CC é:

I_dim = 1,25 × Icc_módulo

O fator 1,25 é exigido pela NBR 16690 como margem de segurança sobre a corrente de curto-circuito do módulo (Isc). Para um painel de 580 W com Isc de 13,8 A:

I_dim = 1,25 × 13,8 = 17,25 A

Na tabela de capacidade de corrente da NBR 5410 (cabo ao ar, temperatura de 40°C): um cabo de 6 mm² conduz até 46 A. Portanto, 6 mm² é suficiente pela capacidade de corrente para a grande maioria dos painéis residenciais.

Critério 2: queda de tensão máxima (perda ôhmica)

A NBR 16690 estabelece que a queda de tensão no circuito CC deve ser inferior a 1,5% da tensão de operação. Na prática, projetar para 1% ou menos garante melhor desempenho ao longo dos 25 anos.

Fórmula da perda: Perda (%) = (2 × L × I × ρ) / (S × V) × 100

Onde:

  • L = comprimento do cabo em metros
  • I = corrente da string (A)
  • ρ = 0,0175 Ω·mm²/m (resistividade do cobre a 25°C)
  • S = seção do cabo (mm²)
  • V = tensão de operação da string (V)

Exemplo resolvido:

Sistema de 8 kWp em Campinas (SP):

  • Inversores: 8 kW, 2 entradas MPPT de 4 kWp cada
  • Configuração: 2 strings com 7 painéis de 580 W em série
  • Tensão Vmpp por string: 7 × 40,3 V = 282 V
  • Corrente Impp: 14,4 A
  • Comprimento da string mais longa até o inversor: 28 metros

Opção A — 6 mm²: Perda = (2 × 28 × 14,4 × 0,0175) / (6 × 282) × 100 = 14,11 / 1.692 × 100 = 0,83% ✓ Dentro do limite

Opção B — 4 mm²: Perda = (2 × 28 × 14,4 × 0,0175) / (4 × 282) × 100 = 14,11 / 1.128 × 100 = 1,25% ✓ Dentro do limite, mas margem menor

Opção C — 10 mm²: Perda = (2 × 28 × 14,4 × 0,0175) / (10 × 282) × 100 = 14,11 / 2.820 × 100 = 0,50% — melhor desempenho

Neste caso, 6 mm² é adequado. Mas se o comprimento fosse 45 metros, o 6 mm² daria 1,34% (próximo do limite), e o 10 mm² seria o mais indicado.

Prysmian Afumex Solar versus Nexans: comparativo técnico

As duas marcas mais presentes no mercado brasileiro de cabos solares premium são a Prysmian (com a linha Afumex Solar) e a Nexans. Ambas são europeias com produção local ou importação regular.

Prysmian Afumex Solar PV

Especificações técnicas:

  • Norma: EN 50618 e TÜV 2PfG 1169/08.2007
  • Tensão máxima: 1.500 VCC
  • Temperatura: -40°C a +90°C (pico 120°C)
  • Condutor: cobre estanhado classe 5 (máxima flexibilidade)
  • Isolação: XLPE reticulado (termorresistente)
  • Cobertura: copolímero EVA + HDPE (dupla proteção UV)
  • Seções disponíveis: 4, 6, 10, 16, 25 mm²
  • Preço (6 mm², 2026): R$ 7,20 a R$ 8,80/metro

Pontos fortes: excepcional resistência UV, cobre estanhado retarda corrosão em ambientes úmidos, flexibilidade superior facilita instalação em telhados cerâmicos com muitas curvas.

Nexans Energyflex Solar DB+

Especificações técnicas:

  • Norma: EN 50618, TÜV 2PfG 1169, IEC 62930
  • Tensão máxima: 1.500 VCC
  • Temperatura: -40°C a +90°C
  • Condutor: cobre nu classe 5
  • Isolação: XLPE dupla camada
  • Seções disponíveis: 4, 6, 10, 16, 25 mm²
  • Preço (6 mm², 2026): R$ 6,80 a R$ 8,20/metro

Pontos fortes: a dupla camada de XLPE oferece maior resistência mecânica contra abrasão — vantagem em instalações onde o cabo passa sobre superfícies rugosas (telhas cerâmicas, borda de laje).

Quando escolher cada uma

Prysmian Afumex Solar: melhor para instalações em ambientes com alta umidade (litoral, regiões úmidas da Amazônia) pela proteção extra contra corrosão do cobre estanhado.

Nexans Energyflex: melhor para instalações com muito tráfego mecânico do cabo — passagens em calhas, pela cumeeira de telhados cerâmicos, áreas com risco de pisoteio durante manutenção.

Ambas são equivalentes para a vasta maioria das instalações residenciais e comerciais no interior do Brasil.

Alternativas nacionais: Conduspar e Ficap

Para projetos com orçamento mais apertado, os cabos nacionais são uma alternativa razoável quando certificados corretamente:

Conduspar Solaris:

  • Certificação INMETRO e EN 50618
  • Preço: R$ 5,50 a R$ 6,80/metro (6 mm²)
  • Fabricação nacional (Paraná)
  • Boa rastreabilidade de lote — vantagem para auditorias

Ficap Solar:

  • Certificação INMETRO
  • Preço: R$ 5,20 a R$ 6,50/metro
  • Amplamente disponível em distribuidores de material elétrico

A diferença de preço em relação às importadas é de 20 a 30%. Para um sistema que usa 80 metros de cabo (positivo + negativo), a economia é de R$ 120 a R$ 200 — relevante em projetos de menor margem.

Cabo CA: o que muda após o inversor

Após o inversor, o sistema usa cabo convencional de CA, regulado pela NBR 5410. As regras de dimensionamento são diferentes:

  • Critério principal: capacidade de corrente (não queda de tensão, pois o comprimento normalmente é curto)
  • Material: cobre com isolação de PVC ou XLPE — não é necessário cabo solar específico
  • Proteção: deve passar por eletroduto (proibido fiação exposta para CA em instalações permanentes)
  • Seção mínima: calculada para a corrente nominal do inversor × 1,25

Para inversor de 8 kW trifásico com corrente nominal de 12,1 A: I_dim = 1,25 × 12,1 = 15,1 A → cabo de 2,5 mm² (capacidade de 23 A ao ar)

DPS, fusíveis e disjuntores: o complemento do cabo bem dimensionado

Um cabo bem dimensionado não é suficiente sem os dispositivos de proteção corretos:

DPS (Dispositivos de Proteção contra Surtos):

  • Classe I (T1): na stringbox no telhado, protege contra surtos de descarga atmosférica direta
  • Classe II (T2): no quadro CA junto ao inversor, protege contra surtos de manobra

Fusíveis de string: Obrigatórios quando há 3 ou mais strings em paralelo. A corrente de curto-circuito reversa pode danificar os módulos sem proteção.

Disjuntores CC:

  • No lado dos painéis: disjuntor CC bipolado (interrompe ambos os polos positivo e negativo)
  • No lado CA: disjuntor CA conforme a corrente nominal de saída do inversor

Todos esses componentes precisam estar dimensionados de forma coordenada com o cabo — um elo fraco compromete a proteção do sistema inteiro.

Fontes e referências